Ao olhar ao redor, a tecnologia é onipresente. Das telas de smartphones até os eletrodomésticos não há quem não se valha dos benefícios que ela proporciona; esta realidade só tende a aumentar, vista a transição da sociedade para a indústria 4.0, em que a IoT (Internet das Coisas) promete dar novo significado à interação a partir de roupas, carros, aparelhos domésticos conectados à rede e interligados entre si.

Aos adultos, é importante que tenham dimensão dos efeitos da tecnologia na infância para que adotem posturas de desenvolvimento e não de superproteção, bem como prepararem a abordagem para o futuro, que já não está mais apenas nos filmes de experiência científica, mas é um fato que apenas espera para ganhar escala e fazer parte do cotidiano das famílias.

Segundo a pesquisa “TIC Kids Online Brasil” da Cetic.br, no país, mais de 24 milhões de crianças entre 9 e 17 anos têm acesso à internet, o que corresponde ao total de 82% dos brasileiros desta faixa etária em 2016. Destes 84% se conectam todos os dias, sendo o smartphone o principal canal, utilizado por 91% dos menores conectados.

Entre os primeiros anos da infância, o índice também continua alto, com 95% das crianças de zero a dois anos tendo acesso à internet em casa via dispositivos móveis no ano de 2017, como apontado pela pesquisa americana Zero to Eight.
Diante de números tão expressivos, a dúvida que fica no ar é como fazer deste hábito algo positivo que tenha valor para o crescimento e desenvolvimento das crianças.

De olho nos novos perfis de comportamento desenvolvidos a partir da participação da tecnologia na infância, organizações do mundo inteiro têm debatido diretrizes visando o bem-estar infanto-juvenil. A Sociedade Brasileira de Pediatria é uma delas, tendo desenvolvido o manual “Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital”, em 2016. Divididas pelos papéis que os adultos cumprem na vida das crianças (pais, educadores e pediatras), as orientações giram, principalmente em torno de: tempo, hábitos, segurança e diálogo.

Tempo – limitar o tempo de acesso conforme a capacidade de interpretação da criança, a fim de que o excesso não interfira no sono, alimentação, conduta e comportamento delas. Para as menores de dois anos é recomendado desestimular a utilização, principalmente em horários que antecedem as refeições e os momentos de dormir, enquanto os que estão com idade entre dois e cinco anos se indica o máximo de 1h.

Até os seis anos, os menores não conseguem diferenciar a fantasia da realidade, o que faz crítico o monitoramento de conteúdos para que não sejam expostos e se acostumem com a cultura do ódio, os diversos tipos de violência e intolerância.

Hábitos – até os dez anos não se recomenda a presença e a utilização de mídias (televisão, computadores e smartphones) nos quartos, mas em áreas comuns, ao alcance e fácil acesso dos pais. É preciso reservar, ao menos, 1h diária para atividades físicas e respeitar o período de sono, de 8h à 9h por noite, para o desenvolvimento cerebral e o crescimento.

É preciso que haja o exemplo: não há como cobrar uma rotina saudável de utilização da tecnologia de crianças que veem os adultos que as cercam imersas continuamente nos dispositivos.

Segurança – realizar as configurações que bloqueiem o acesso a conteúdos inapropriados nos diversos aparelhos a que as crianças têm acesso, bem como realizar a instalação de softwares de proteção como os antivírus. Outra recomendação é o monitoramento dos sites e das mensagens nos diferentes canais pelos quais os menores navegam.

Diálogo – Vínculo importante, a conversa sob este assunto deve explicar a respeito das limitações, sobre nunca enviar fotos ou vídeos, bem como comunicar se alguém, ainda que seja alguém conhecido, pedir qualquer uma dessas mídias. Explicar de forma clara e didática (conforme a idade) as razões pelas quais se deve ter cuidado e não acreditar em tudo o que vê ou é convidado.

Pensar sobre todas essas sugestões acima é importante, pois, atualmente se tornou impossível privar as crianças da influência digital. E o fato de que elas tenham este contato não é, necessariamente, ruim.

Isso porque, se permitida de forma orientada e segura, a tecnologia na infância proporciona diversos mecanismos de aprendizado que desenvolvem as crianças, a partir de jogos e outros formatos educativos que estimulam o aprendizado e a descoberta.

No entanto, ao serem expostos em excesso e a conteúdos inapropriados é possível haver o desenvolvimento de ansiedade e impulsividade, déficit de atenção, obesidade, dificuldade de relacionamento e aprendizagem.

Um período de desenvolvimento, como é a infância e a adolescência, em meio a uma era em transformação, como a sociedade contemporânea, falar de regras é prematuro e ineficiente, porque tudo está, a todo o tempo, a ponto de mudar.
Para driblar a imprevisibilidade da sociedade e das novas propostas tecnológicas, os adultos responsáveis por menores precisam investir tempo em relações fortes que proporcionem espaço para as crianças se sentirem ouvidas e confiantes em partilhar o que quiserem ou precisarem falar, fazendo da tecnologia uma aliada da construção de cidadãos.